Mayara Senise e a Fotografia Que Transforma Casamentos LGBTQIA+ Em Memória e Representatividade

Há fotógrafos que registram casamentos. E há aqueles que compreendem profundamente o que significa chegar até o altar. Para Mayara Senise, cada clique é muito mais do que uma imagem bonita: é um testemunho de coragem, de história e de amor que resistiu.
Desde que começou a fotografar casamentos em 2016, Mayara percebeu algo que muitos ainda não enxergavam com a mesma sensibilidade: os casamentos LGBTQIA+ carregam um peso simbólico único. Não são apenas celebrações românticas — são também marcos de conquista, de visibilidade e de pertencimento. Cada casal que caminha até o altar traz consigo uma trajetória que muitas vezes passou por desafios, silêncios, reconciliações e, sobretudo, pela coragem de amar.
Foi nesse cenário que Mayara encontrou não apenas um nicho profissional, mas um propósito. Ao construir seu portfólio com casais LGBTQIA+, ela começou a registrar histórias que mereciam ser vistas, celebradas e lembradas. Histórias onde o amor não se molda a padrões prontos, mas se expressa com autenticidade, identidade e verdade.
Seu olhar sensível transforma momentos em narrativa. Nos votos emocionados, nos abraços das famílias, nas lágrimas que insistem em aparecer quando duas pessoas finalmente podem dizer “sim” diante de todos, Mayara entende que sua câmera não registra apenas um evento — ela preserva um capítulo importante da história do amor e da representatividade.
Nesta entrevista exclusiva para o Guia do Casamento Gay, Mayara Senise fala sobre fotografia, inclusão e sobre a responsabilidade — e a beleza — de contar histórias que ajudam a mostrar ao mundo que todo amor merece ser celebrado.

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01-Você tem se destacado fotografando muitos casamentos LGBTQIA+. Como esse caminho começou na sua carreira?

R: 

Lembro quando o casamento LGBTQIA+ foi legalizado no Brasil. Comecei a fotografar casamentos em 2016 e nessa época não haviam tantos fornecedores fazendo, vi então uma oportunidade pra entrar nesse nicho. Chamei um casal de amigas pra fazer um ensaio e comecei a construir um portfólio na área. 

02-O que você acredita que torna um casamento LGBTQIA+ visualmente e emocionalmente diferente de outros casamentos que você já fotografou?

R: Acredito que um casamento LGBTQIA+ não é só um casamento. É uma grande conquista! Aquele casal que está ali provavelmente passou por muitos desafios de aceitação principalmente na família. São desafios que é difícil vermos acontecendo com outros casais. Olhar pra história daquelas duas pessoas no altar e tudo que enfrentaram juntos pra estar ali, celebrando o amor na frente das 2 famílias é um ato de coragem e vitória muito grande. Isso por si só já deixa os casamentos bem emocionantes e verdadeiros, sabe? Por que eles colocam o amor na frente de todas as outras coisas. O casal LGBTQIA+ que casa também quer imprimir a própria identidade ali visualmente falando. Eles não dão tantos ouvidos aos que os outros falam ou ao que a moda dos casamentos dita, são casamentos mais autênticos, com o que faz sentido pra cada um e isso me encanta! 

03-Seu trabalho transmite muita sensibilidade e verdade. Como você cria essa conexão com os casais antes e durante o grande dia?

R: Em primeiro lugar eu sempre faço reuniões pra conhecer cada casal e apresentar melhor minha forma de trabalho, também gosto de enviar questionários pra salvar por escrito informações importantes que não podem faltar no dia. Sabendo a história de cada casal, no dia eu to ali celebrando junto com eles, quero que eles aproveitem o máximo cada minuto desse dia! Por isso prefiro fotografar de forma mais leve e espontânea os momentos que vão acontecendo. 

04-Na sua visão, qual é o papel da fotografia na representatividade de histórias de amor da comunidade LGBTQIA+?

R: A fotografia é importantíssima! Ainda mais em um momento que vivemos referências visuais nas redes sociais mais do que nunca. Precisamos sim encher as redes com casamentos LGBTQIA+ e mostrar que o amor é para ser celebrado por todas as pessoas, de todas as formas possíveis! 

05-Existe algum momento específico dos casamentos que você sente que carrega mais emoção e significado para você registrar?

R: Ah eu amo a hora dos votos! É ali que os casais abrem o coração, contam um pouquinho da sua história e mostram a todos o porquê aquele dia é tão especial praeles. Haja lencinhos! Rs

06-Você acredita que o mercado de casamentos está se tornando mais inclusivo ou ainda há barreiras para profissionais e casais LGBTQIA+?

R: Olha, melhorou muito! Eu vejo cada vez mais fornecedores acolhendo o públicomas ainda tem muito há melhorar! Tem casais que ainda recebem um tratamento diferente quando se identificam pra algum fornecedor, outros até se recusam fazer o casamento. Acho bem absurdo essa postura de uma área que se dedica a realizar os sonhos das pessoas. 

07-Como você constrói uma narrativa visual que respeite a identidade e a história única de cada casal?

R: Conhecer a história de cada casal e o que faz sentido pra cada um não deve ser menos importante que uma estética na fotografia ou um desejo do fotógrafo. Devemos lembrar que o que fazemos tem muito mais a ver com o outro do que com a gente. Então eu deixo o casal bem à vontade pra serem eles mesmos. 

08-Ao fotografar dois noivos, duas noivas ou casais com diferentes expressões de gênero, você sente que precisa adaptar seu olhar ou direção? Como funciona esse processo?

R: São poucas adaptações, não é aquele bicho de sete cabeças como algumas pessoas pensam. Basicamente, eu me preocupo em usar sempre uma linguagem inclusiva no meu orçamento e no meu tratamento. Nada de making of do noivo e making of da noiva, por exemplo. Troco tudo por números: 1 ou 2 making of

No dia das fotos, tem umas poses heteronormativas que eu evito. Precisamos desassociar o papel masculino/feminino na pose e focar na personalidade e individualidade de cada um. 

09-Qual foi um casamento que te marcou profundamente até hoje e por quê?

R: Difícil escolher um só porque todos me emocionam muito! Teve um que me vem à memória que foi o casamento de 2 noivas na Bahia. Foram 4 dias de festa e elas me fizeram sentir como convidada. A Bahia tem uma energia especial por si própria, quando junta casamento então, só alegria! Foi incrível passar esses dias na companhia das meninas e de todos os convidados. 

10-Seu nome tem começado a ganhar destaque. Como você enxerga o crescimento da sua carreira nos próximos anos?

R: Me vejo ganhando mais notoriedade e expandindo fronteiras também. 

11-Para você, o que diferencia um fotógrafo de casamento comum de alguém que realmente conta histórias através das imagens?

R: A sensibilidade de olhar pro outro faz toda diferença. Fazer as pessoas se sentirem à vontade na frente das câmeras nem sempre é uma tarefa fácil. 

12-Que tendências na fotografia de casamento você acredita que devem crescer, especialmente dentro do universo LGBTQIA+?

R: Acredito que com a demanda crescente, os fornecedores de casamento vão cada vez mais abrir o leque de possibilidades para oferecer produtos e serviços mais inclusivos. 

Pensar que todo casamento tem uma noiva e um noivo é algo extremamente limitante pra quem trabalha com casamentos e aos poucos isso vai ficar cada vez mais claro. 

13-Muitos casais têm medo de não se sentirem representados ou acolhidos por fornecedores. Como você trabalha para criar um ambiente seguro e confortável?

R: Primeiro eu deixo bem claro nas minhas redes sociais que atendo esse público, os casais que chegam até meu trabalho verão vários casamentos LGBTQIA+ no meu portfólio. 

14-Que conselho você daria para casais LGBTQIA+ que estão escolhendo um fotógrafo para o casamento?

R: Fique atento aos sinais, veja a forma como o fornecedor te trata, se ele também tem casamentos LGBTQIA+ postados nas redes sociais, procure referências e indicações. Evite fazer uma escolha só pelo preço, lembra que o fotógrafo é um dos fornecedores que vão passar mais tempo ao seu lado nesse momento. 

15-E olhando para o futuro: que tipo de história ou projeto você ainda sonha em fotografar?

R: Eu tenho uma vontade grande de fotografar o casamento de um casal de idosos LGBTQIA+ 

Seria bem emocionante! 

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