Há quem encontre a própria vocação ao longo de muitos anos. Outros, no entanto, parecem reconhecer o caminho quase de imediato. Foi assim com o jovem celebrante que, aos 25 anos, decidiu transformar histórias de amor em cerimônias cheias de significado, sensibilidade e verdade.

Com formação em Jornalismo pela UFSC e uma habilidade natural para a comunicação, ele descobriu no altar um espaço onde palavras ganham peso emocional e se transformam em pontes entre os noivos e todos que testemunham aquele momento. Mais do que conduzir um roteiro, seu trabalho é escutar, compreender e traduzir em narrativa aquilo que torna cada relação única.
Influenciado pela leveza de Florianópolis e pela própria vivência como pessoa LGBT, ele traz para o mercado de casamentos um olhar contemporâneo, humano e inclusivo sobre o amor. Suas celebrações buscam equilíbrio entre tradição e autenticidade, criando cerimônias que emocionam, fazem sorrir e, acima de tudo, fazem sentido para quem está ali vivendo aquele capítulo da história.
Nesta entrevista, ele fala sobre vocação, representatividade, juventude em um mercado tradicional e sobre o verdadeiro papel de um celebrante: transformar memórias, sentimentos e promessas em um momento inesquecível.
01 – Como nasceu o seu desejo de se tornar celebrante de casamentos tão jovem, aos 25 anos? Houve um momento decisivo nessa escolha?
Murilo Mestriner:
O amor sempre foi um tema muito presente na minha vida. Desde cedo, me interessei por conversas sobre relacionamentos, vínculos e pela forma como as pessoas constroem suas histórias a dois.
Ao mesmo tempo, falar em público sempre foi algo natural para mim. Durante a graduação em Jornalismo na UFSC, tive a oportunidade de atuar como mestre de cerimônias em formaturas, o que me ajudou a desenvolver presença, segurança e sensibilidade para conduzir momentos marcantes.
O ponto de virada aconteceu em maio de 2025, no casamento da minha prima mais próxima. Decidi fazer uma homenagem, mas entendi que aquele momento não era só sobre ela — era sobre o casal. Então construí um texto contando a história dos dois, usando referências de autores e organizando a narrativa de forma leve e emocional. Curiosamente, tudo fluiu com muita facilidade, quase como se eu já soubesse exatamente o que fazer.
Algum tempo depois, meu pai, que é radialista, assistiu ao vídeo dessa homenagem e, em outro momento, foi impactado por um vídeo de uma celebrante de casamentos. Em uma conversa casual entre nós, ele comentou: “Por que você não faz isso?” Aquela pergunta foi o empurrão que faltava.
A partir dali, decidi me apresentar aos cerimonialistas da minha região, contar quem eu era e como eu enxergava a celebração de um casamento. As oportunidades começaram a surgir naturalmente.
O que realmente me fez ter certeza dessa escolha foi perceber que eu tinha me encontrado profissionalmente. Fazer parte de um dos dias mais felizes da vida de um casal é algo muito especial, e eu amo todo o processo: desde a primeira conversa, passando pela escuta da história, até o tão esperado “podem se beijar”.
Hoje, ainda concilio a atuação como celebrante com meu trabalho como analista de marketing em uma empresa de tecnologia, mas tenho um objetivo muito claro: viver exclusivamente de celebrações e continuar contando histórias de amor de forma única e verdadeira.
02 – De que forma ser um celebrante LGBT influencia sua escuta, sua escrita e a forma como você conduz as cerimônias?
Murilo Mestriner:
Ser uma pessoa LGBT influencia diretamente a forma como eu escuto, escrevo e conduzo uma cerimônia, porque quem é LGBT cresce refletindo muito cedo sobre o amor. Desde pequenos, somos questionados — e nos questionamos — sobre a nossa maneira de amar.
Essa vivência nos acompanha por boa parte da vida e nos torna mais atentos às nuances, aos silêncios e às camadas emocionais que existem em toda relação.
Acredito que isso amplia o meu olhar. Não no sentido de ser melhor, mas de ser mais sensível a detalhes que muitas vezes passam despercebidos. Essa trajetória pessoal acaba me dando ferramentas para enxergar o amor de forma menos engessada e mais plural.
Na escuta, isso se traduz em abertura real: uma escuta sem julgamentos, sem pressupostos e com muito respeito à história de cada casal. Meu foco é compreender quem são aquelas pessoas, como se relacionam e o que faz sentido para elas, independentemente de serem casais heterossexuais ou homoafetivos.
Na escrita, essa vivência me torna naturalmente mais cuidadoso e empático. Eu me coloco no lugar dos noivos para construir um texto que represente a história deles com verdade, sem estereótipos e sem qualquer possibilidade de constrangimento.
E na condução da cerimônia, essa sensibilidade aparece na forma como busco leveza. Gosto de desconstruir a ideia de que cerimônias precisam ser frias, longas ou excessivamente solenes. Acredito que o amor, quando é verdadeiro, é leve — e a cerimônia precisa refletir isso.
03 – Florianópolis tem uma energia muito própria. Como a cidade e o estilo de vida local se refletem nas suas celebrações?
Murilo Mestriner:
Florianópolis tem uma energia muito própria, marcada pela leveza, pela natureza e por um ritmo de vida que convida a respirar com mais calma.
Aqui, as pessoas valorizam experiências verdadeiras, menos engessadas e mais conectadas com o que realmente importa — e isso aparece muito claramente nos casamentos.
Eu me considero uma pessoa leve, bem-humorada e próxima, então sinto que Floripa me permite ser exatamente quem eu sou, inclusive no meu trabalho.
Essa atmosfera da cidade se reflete diretamente nas minhas celebrações, que buscam ser acolhedoras, fluidas e com espaço para o sorriso, para a emoção e para a espontaneidade.
Essa mistura entre simplicidade e sofisticação inspira cerimônias mais autênticas, menos formais e mais humanas. No fim, acredito que a cidade não é apenas o cenário, mas parte da experiência.
04 – O que você acredita que um celebrante da sua geração traz de novo para o mercado de casamentos?
Murilo Mestriner:
Acredito que a minha geração chega ao mercado com um olhar muito mais questionador e autoral. Somos uma geração que já cresceu quebrando tabus, revisando tradições e repensando o que realmente faz sentido manter.
Hoje, os casais querem menos protocolo e mais verdade. Querem se reconhecer na cerimônia e ouvir a própria história contada com sensibilidade e personalidade.
Então, em vez de seguir um roteiro engessado, busco criar experiências personalizadas que respeitam a essência do casal.
No fim, acredito que o grande diferencial é transformar a cerimônia em um momento que não parece um script, mas um encontro genuíno entre pessoas que escolheram caminhar juntas.
05 – Para você, qual é o verdadeiro papel de um celebrante dentro de um casamento — além das palavras ditas no altar?
Murilo Mestriner:
O celebrante é o elo entre os noivos e todos que estão ali para testemunhar aquele momento. É ele quem conduz a energia da cerimônia e cria a ponte emocional entre a história do casal e os convidados.
Mais do que conduzir um roteiro, o celebrante conduz emoções.
Ele precisa ler o ambiente, entender o tempo da cerimônia e sentir quando é hora de emocionar, aliviar, respirar ou sorrir. Esse equilíbrio é o que transforma a cerimônia em uma experiência gostosa de viver.
No fim, o celebrante não apenas apresenta um casal. Ele cria o clima emocional que inaugura a celebração daquele casamento.
06 – Como é o seu processo para transformar a história de um casal em uma cerimônia autêntica e emocionante?
Murilo Mestriner:
Logo após o fechamento do contrato, procuro me aproximar do casal de forma natural: acompanho as redes sociais, observo a linguagem, o humor, a forma como se expressam e como se relacionam. Isso me ajuda a entender a personalidade de cada um e o tom que aquela celebração pede.
Depois, faço uma conversa inicial com os dois juntos. Esse é um momento essencial para conhecer a história do casal, entender como se conheceram, o que os une e, principalmente, o que eles esperam da cerimônia.
Em seguida, realizo conversas individuais. Gosto muito dessa etapa porque ela revela camadas que só aparecem quando o outro não está presente. É quando observo como cada um fala do parceiro, quais memórias escolhem contar e que tipo de admiração aparece nas entrelinhas.
Por fim, converso com pelo menos duas pessoas próximas do casal, geralmente padrinhos, madrinhas ou amigos muito íntimos. Essa etapa traz um novo viés para a história e revela detalhes que nem sempre surgem nas conversas com os noivos.
A partir de tudo isso, organizo sentimentos, memórias e palavras para criar uma cerimônia que não seja apenas bonita, mas verdadeira — uma celebração em que o casal se reconheça e os convidados se conectem.
07 – Existe algum tipo de amor ou história que mais te toca durante as cerimônias? Por quê?
Murilo Mestriner:
Acredito que toda história de amor verdadeira me toca. E faço questão de dizer isso para os casais, especialmente quando eles começam a conversa dizendo que a história deles “não tem nada demais”.
Eu nunca concordo com isso. O encontro entre duas pessoas sempre carrega algo único, quase mágico, porque só acontece daquele jeito quando aquelas duas pessoas específicas se encontram naquele momento da vida.
Às vezes, o que o casal enxerga como algo simples é justamente o que torna a história ainda mais bonita: a rotina compartilhada, o cuidado diário, o companheirismo silencioso.
Meu papel como celebrante é enxergar valor onde, muitas vezes, os próprios noivos já não enxergam mais por estarem dentro da própria história.
08 – Você já sentiu que sua presença como celebrante LGBT foi, por si só, um ato de representatividade para algum casal ou família?
Murilo Mestriner:
Até o momento, eu ainda não tive a oportunidade de celebrar um casamento LGBT. Inclusive, recentemente fechei meu primeiro contrato para um casamento LGBT, que acontecerá no mês de novembro — algo que, pessoalmente, tem um significado muito especial para mim.
Por isso, acredito que esse papel de representatividade ainda está em construção na minha trajetória como celebrante.
Mas, ao mesmo tempo, sinto que a minha presença, minha postura e a forma como conduzo as cerimônias já comunicam valores importantes, como respeito, inclusão e liberdade para amar.
Mesmo celebrando casais heterossexuais, procuro criar um ambiente onde todos se sintam acolhidos e respeitados.
09 – Em um mercado ainda marcado por tradições, como você equilibra rituais clássicos com narrativas mais livres e contemporâneas?
Murilo Mestriner:
Acredito que as tradições têm um papel importante: elas ajudam a dar sentido, continuidade e simbolismo aos rituais.
O que eu não acredito é que elas precisem ser reproduzidas sempre da mesma forma, sem questionamento ou adaptação.
Nas minhas celebrações, busco respeitar a estrutura da cerimônia — o cortejo, os momentos-chave e os rituais que fazem sentido para o casal — mas sempre com um olhar contemporâneo.
Afinal, a cerimônia é uma tradição dentro do casamento, mas o casamento, acima de tudo, é sobre amor. E amor não é engessado.
10 – O que você nunca abre mão em uma cerimônia que carrega a sua assinatura?
Murilo Mestriner:
Fazer as pessoas sorrirem, especialmente os noivos.
Acredito profundamente que o dia do casamento precisa ser vivido com alegria. Quando consigo arrancar um riso genuíno deles, sinto que cumpri uma parte essencial do meu papel.
Isso não significa transformar a cerimônia em um stand-up comedy. Muito pelo contrário. Eu respeito o peso simbólico e a emoção que esse momento carrega naturalmente.
O que eu busco é quebrar a ideia de que a cerimônia precisa ser longa, engessada ou excessivamente séria.
11 – Sendo jovem em um mercado com profissionais mais experientes, como você construiu autoridade e confiança com os casais?
Murilo Mestriner:
Isso ainda é um desafio. Afinal, o que um “menino de 25 anos” sabe falar sobre amor?
Mas o segredo, para mim, é aproveitar as pessoas que me dão oportunidade, seguir coletando bons feedbacks e nunca desistir.
12 – Qual foi a cerimônia que mais te transformou até hoje — não como profissional, mas como pessoa?
Murilo Mestriner:
Essa é uma pergunta difícil, porque acredito que quase toda cerimônia me transforma de alguma forma.
Mas, se eu tiver que escolher uma, penso na celebração da Yasmin e do Leonardo, um dos primeiros casais que confiaram em mim para conduzir a cerimônia deles.
A história dos dois me atravessou de um jeito muito pessoal. Eles têm uma relação baseada em admiração genuína: um é fã do outro, torce pelo crescimento do outro e celebra as conquistas como se fossem próprias.
Aquilo me fez refletir não só sobre o meu trabalho, mas sobre o que eu desejo para a minha própria vida afetiva.
13 – Na sua visão, o que faz uma cerimônia ser inesquecível para os noivos e para os convidados?
Murilo Mestriner:
Uma cerimônia se torna inesquecível quando consegue surpreender os próprios noivos com a forma como a história deles é contada.
Mesmo conhecendo cada detalhe da própria trajetória, o impacto está em ouvi-la por um novo olhar, organizada de um jeito que eles não imaginavam.
Quando isso acontece, a cerimônia deixa de ser apenas um relato de fatos e passa a ser uma experiência emocional.
14 – Que mensagem você gostaria que as pessoas levassem consigo ao ouvir uma cerimônia conduzida por você?
Murilo Mestriner:
Que toda história de amor é incrível e merece ser contada com carinho, respeito e verdade.
E, acima de tudo, que as pessoas levem consigo a ideia de que o amor pode — e deve — ser leve, divertido e gentil.
15 – Olhando para o futuro, que legado você deseja construir como celebrante LGBT dentro do universo dos casamentos?
Murilo Mestriner:
Quero ajudar a ampliar o imaginário sobre o que é uma cerimônia de casamento e sobre quem pode ocupar esse lugar.
Desejo deixar como marca cerimônias verdadeiras, leves e profundamente humanas, onde as pessoas se sintam representadas, acolhidas e respeitadas.
Também quero contribuir para um mercado de casamentos mais diverso e sensível, onde a representatividade não seja exceção, mas parte natural do cenário.
Se, em algum momento, um casal LGBT se sentir mais seguro ou pertencente ao ver alguém como eu no altar, já sentirei que esse legado começou a se cumprir.
No fim, meu maior desejo é que as pessoas se lembrem das cerimônias que conduzi não apenas pelas palavras, mas pelo sentimento — e que associem meu nome à leveza, à verdade e à liberdade de amar.

