Algumas escolhas profissionais nascem de um plano. Outras nascem de um encontro — daqueles que mudam a forma como a gente enxerga o mundo. Foi exatamente assim com Fellipe.

Aos 40 anos, ele carrega na trajetória uma decisão que começou ainda no quinto ano da faculdade, durante um estágio no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Ali, em meio a histórias reais, pacientes vulneráveis e desafios que iam muito além da medicina técnica, ele percebeu algo que marcaria seu caminho para sempre: a infectologia não era apenas sobre doenças — era sobre pessoas.
O que ele viu naquele momento foi uma especialidade que exigia ciência, mas também escuta, empatia e presença. E foi justamente esse olhar mais humano que despertou nele um encanto que acabaria definindo sua carreira.
Nesta entrevista, Fellipe conta como aquele estágio transformou sua visão da medicina e por que cuidar de quem muitas vezes é invisibilizado se tornou o centro da sua missão.
01-Nos últimos anos, qual tem sido o panorama das ISTs dentro da população LGBTQIA+ no Brasil? Há mudanças que chamam atenção?
R: O HIV ainda prevalece em homens que fazem sexo com homens em nosso país. A PrEP freou a velocidade de novas infecções pelo HIV, porém ainda acontecem muito. Apesar disso não podemos relacionar o HIV à uma população específica pois em outros países como a Nigéria e o Congo por exemplo, o HIV prevalece em mulheres cisgênero heterossexuais. Outras ISTs como Sífilis e Gonorréia sempre foram muitíssimo prevalentes em toda a população sexualmente ativa, temos a impressão do aumento de casos pois as pessoas se testam mais, fazem mais diagnósticos e falam mais sobre.
02-Depois de muitos avanços no debate sobre HIV, quais outras ISTs hoje deveriam entrar com mais força na conversa dentro da comunidade?
R: A sífilis é a IST mais comum e poderíamos reforçar os sintomas para a população poder buscar ajuda quando desconfiar dessa infecção. Além disso podemos reforçar a DoxyPEP como estratégia de prevenção quando o indivíduo julgar que teve uma exposição sexual de risco.
03-Existe a sensação de que algumas pessoas relaxaram nos cuidados com prevenção. Isso é algo que você percebe no consultório?
R: As pessoas que me procuram no consultório estão interessadas em tratar ou prevenir ISTs. Não vejo isso como uma negligência e sim como pessoas cuidadosas com sua saúde sexual. Diagnosticar ISTs faz parte do cuidado de pessoas sexualmente ativas. Com mais diagnósticos há mais tratamentos e menos transmissão aos parceiros ou parceiras.
04-Sífilis, gonorreia e HPV têm aparecido com mais frequência. O que explica esse aumento e quais sinais de alerta as pessoas deveriam observar?
R: A sensação que elas aparecem mais é porque as pessoas se testam mais e estão mais conscientes sobre elas. Mas as três sempre foram muitíssimo prevalentes em toda a população, não apenas em pessoas LGBT+.
05-Muitas ISTs podem ser assintomáticas. Como isso impacta especialmente pessoas que têm vida sexual ativa e múltiplos parceiros?
R: Verdade. Sífilis, clamídia, gonorreia e HIV podem ser assintomaticas. O acompanhamento médico com exames possibilita o diagnóstico precoce e tratamento.
06-Dentro da comunidade LGBTQIA+, ainda existe estigma quando o assunto é IST. Como esse estigma afeta o diagnóstico e o tratamento?
R: Sim. O moralismo cristão associou ISTs à ‘’sujeira’’ e marginalização e para desconstruirmos isso do inconsciente coletivo é bastante trabalhoso. Sinto que há avanços, mas ainda em pequenos passos.
07-Quais exames de rotina você considera fundamentais para homens gays, bissexuais, pessoas trans e outras identidades da comunidade?
R: Checkup de ISTs, colesterol, triglicérides, glicemia, eixo hormonal. Na minha opinião acho que TODOS deveriam fazer semestralmente ou anualmente, no mínimo.
08-Em que situações a pessoa deveria procurar um infectologista mesmo sem sintomas claros?
R: Pessoas que se sentem mais vulneráveis à ISTs(para prevenção) ou pessoas com condições crônicas de saúde como o HIV e Hepatite B(para tratamento e seguimento).
09-Hoje se fala muito sobre prevenção combinada. Como ela funciona na prática para além do HIV?
R: A prevenção combinada é o acompanhamento regular com exames, vacinas em dia, uso do preservativo e da PrEP. Quem consegue fazer tudo isso fica com a vida sexual ‘’nota 10’’.
10-Existe diferença nos riscos ou nos cuidados de prevenção dependendo das práticas sexuais? O que é importante esclarecer sem tabu?
R: Indico a prevenção combinada para todos.
11-O acesso à informação sobre saúde sexual ainda é desigual. Onde você acredita que estamos falhando enquanto sociedade e sistema de saúde?
R: O SUS é maravilhoso, entretanto ele ainda não suporta toda a população que precisa dele. Pouco recurso, pouco profissional habilitado para muitos pacientes. O Brasil é referência nas questões que envolvem o tratamento para o HIV mas sinto que ainda podemos melhorar na retenção dos pacientes e na assistência à saúde mental deles.
12-Em períodos como Carnaval, festivais e grandes eventos, historicamente há aumento de exposição a ISTs. Quais cuidados práticos você recomenda para esse público?
R: PrEP, preservativo, vacinas em dia, exames em dia, lubrificante e DoxyPEP.
13-Vacinas como HPV e hepatites ainda têm baixa cobertura em alguns grupos. Por que elas são tão importantes para a comunidade LGBTQIA+?
R: As vacinas para HPV, Hepatite A e B são importantíssimas para todas as pessoas sexualmente ativas.
14-Como parceiros podem construir uma relação mais saudável e transparente quando o assunto é testagem e prevenção?
R: Falar mais abertamente sem julgamentos e buscando informações de qualidade.
15-Para quem está lendo esta entrevista e quer cuidar melhor da saúde sexual, qual seria o primeiro passo mais importante a partir de agora?
R: Realizar os cuidados de saúde de forma rotineira com visitas ao médico infectologista para quem se sente mais vulnerável às ISTs. Quem se cuida aproveita mais e melhor.
Nota do editor: Confesso que algumas entrevistas ficam na gente de um jeito diferente. Conversar sobre saúde sexual, prevenção e cuidado já é, por si só, um tema importante — mas ouvir Fellipe falar sobre isso trouxe algo além da informação: trouxe humanidade.
Quando ele contou que a escolha pela infectologia começou lá atrás, ainda na faculdade, durante o estágio no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, ficou claro para mim que não se tratava apenas de uma carreira. Era um encontro com um propósito. E isso aparece em cada resposta dele: na forma calma, responsável e ao mesmo tempo acolhedora de falar sobre temas que ainda carregam tanto estigma.
Durante a entrevista, eu senti que estava diante de um profissional extremamente preparado, mas, acima de tudo, de alguém que realmente se importa com as pessoas — especialmente com aquelas que muitas vezes são invisibilizadas ou julgadas. E isso, para mim, é das coisas mais bonitas dentro da medicina.
Saí dessa conversa com uma sensação muito clara de gratidão. Gratidão por existirem médicos como o Fellipe, que unem ciência, sensibilidade e compromisso com a nossa comunidade. Profissionais assim não apenas tratam doenças — eles ajudam a transformar a forma como a gente entende cuidado, saúde e dignidade.
E, sinceramente, foi um privilégio ouvir essa história.


Adorei o tema. Parabéns!